O fim do espectro do autismo? Pesquisadores sugerem um novo paradigma

Além do espectro: cientistas propõem uma nova forma de compreender o autismo
Quando a psiquiatra britânica Lorna Wing apresentou, em 1979, o conceito de “espectro do autismo”, sua intenção não era criar um diagnóstico rígido ou fechado, mas sim desafiar as classificações engessadas que dominavam a psiquiatria infantil naquele momento histórico.
Até então, o entendimento do autismo baseava-se majoritariamente na descrição feita por Leo Kanner, em 1943, que o definia como uma condição rara, uniforme e bem delimitada. Crianças que apresentavam dificuldades sociais, comunicativas ou comportamentais, mas que não se encaixavam perfeitamente nesse modelo clássico, acabavam excluídas do diagnóstico.
Com uma postura prática e ética, Wing defendia que o autismo não deveria ser tratado como algo excepcional, e sim como parte de um amplo conjunto de variações no desenvolvimento social e da comunicação. A proposta original tinha como objetivo incluir pessoas, e não rotulá-las de forma definitiva.
Com o tempo, porém, a reunião de diversas condições sob a categoria única do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) deu origem a um grupo extremamente amplo e diverso, fazendo com que o diagnóstico perdesse precisão. Hoje, é possível que duas pessoas com o mesmo diagnóstico não compartilhem características em comum.
Essa perda de especificidade traz consequências importantes para a pesquisa científica. Ao estudar populações tão heterogêneas sob um único rótulo, os resultados tendem a ser inconsistentes ou inconclusivos. O que antes parecia apenas uma dificuldade clínica acabou se transformando em um obstáculo para o avanço da ciência.
O custo dessa generalização excessiva é alto. Quando perfis biológicos distintos — e por vezes opostos — são analisados como se fossem equivalentes, os estudos produzem conclusões contraditórias: intervenções eficazes para um grupo não funcionam para outro. Assim, o conceito de espectro, criado para promover inclusão, acabou se tornando um entrave ao progresso médico.
Isso ocorre porque a ideia de uma linha contínua que vai do “leve” ao “grave” é uma simplificação perigosa. Ela oculta as necessidades reais de cada indivíduo e ignora evidências já estabelecidas pela ciência: a biologia do autismo não segue um único padrão, mas envolve múltiplos níveis, processos e mecanismos distintos.
Subtipos genéticos e seus limites
Pesquisas recentes — como o estudo conduzido por Benjamin Neale, Anders Børglum e colaboradores, publicado em 2019 na Nature Genetics — têm utilizado grandes bancos de dados, genética e técnicas de neuroimagem para identificar padrões mais específicos dentro do autismo. Esses trabalhos revelaram diferenças genéticas entre distintos subtipos clínicos.
Os resultados indicam que aquilo que chamamos de “espectro” possui, na realidade, bases biológicas variadas. Em vez de um único “gene do autismo”, existem centenas de variações genéticas que interagem de maneiras singulares. Isso reforça a ideia de que o autismo não é uma condição única e homogênea.
Nesse cenário, tratar pessoas com subtipos biologicamente diferentes como se fossem iguais dificulta o avanço da medicina de precisão. O problema não é a diversidade em si, mas a insistência em ignorá-la. Um mesmo medicamento para ansiedade, por exemplo, pode aliviar os sintomas de uma pessoa e causar efeitos adversos em outra com um perfil genético distinto.
Por isso, separar subgrupos biológicos não significa rotular indivíduos de forma rígida, mas desagregar o fenômeno para que cada mecanismo possa ser estudado de maneira isolada. Essa abordagem é fundamental para o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes, direcionados e com menos riscos.
Ainda assim, é importante reconhecer as limitações dessa estratégia, alerta a psicóloga Amy Pearson, da Universidade de Durham, no Reino Unido, em entrevista à New Scientist. Para a pesquisadora — que também é autista —, “os subtipos não conseguem capturar a multidimensionalidade do desenvolvimento”.
Segundo Pearson, assim como qualquer pessoa, indivíduos autistas mudam de diversas formas ao longo da vida. Dessa forma, os subtipos, embora úteis para a pesquisa e a clínica, continuam sendo apenas aproximações simplificadas da experiência e do comportamento autista.
“Constelações”: uma nova abordagem para a neurodivergência
Como alternativa ao modelo linear do espectro, vem ganhando força a proposta das “constelações” ou perfis multidimensionais. Enquanto o espectro atribui uma noção geral de severidade, a abordagem por eixos independentes permite identificar, por exemplo, altas habilidades em Linguagem combinadas com dificuldades intensas em Processamento Sensorial.
A pergunta central do diagnóstico deixa de ser “o quão autista essa pessoa é?” e passa a ser “quais são suas principais forças e quais são suas dificuldades específicas?”. Essas informações podem ser organizadas em um gráfico que gera uma forma geométrica única: a “constelação”, diferente para cada indivíduo.
Sem dúvida, a educação é o primeiro passo para desconstruir estereótipos prejudiciais. A proposta é libertar a sociedade — e até parte da comunidade médica — de concepções ultrapassadas. Em vez de aceitar passivamente o rótulo amplo e impreciso de “estar no espectro”, muitos autistas têm adotado, nos últimos anos, a metáfora da roda de cores.
Criada originalmente como uma tirinha digital pela cartunista britânica Rebecca Burgess — também autista —, a roda “Entendendo o Espectro” apresenta diferentes raios coloridos que representam características específicas, como sensibilidade sensorial ou interesses focados, variando em intensidade conforme as múltiplas combinações possíveis.
Além de aprimorar as abordagens clínicas, essa mudança de paradigma impacta as políticas públicas e a educação. Aprender a lidar com a neurodivergência é essencial para substituir a régua genérica do espectro por um olhar atento à constelação única de necessidades de cada pessoa.



